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Genoma do Vírus da Raiva

18 setembro, 2010

O Brasil tem conseguido controlar há mais de uma década a raiva urbana, que é transmitida principalmente pelo contato com cães. Mas, apesar de controlada, variantes do vírus continuam circulando por meio de animais silvestres, particularmente uma transmitida por morcegos que se alimentam de sangue (hematófagos).

Pesquisadores brasileiros deram um passo importante no estudo do problema ao concluir o sequenciamento completo do genoma dessa variante mantida pela espécie Desmodus rotundus.

De acordo com Silvana Regina Favoretto, pesquisadora científica do Instituto Pasteur e Coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Raiva do Laboratório de Virologia Clínica e Molecular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), que orientou o estudo, o sequenciamento abre caminho para novos trabalhos científicos.

“O sequenciamento possibilitará identificar uma série de informações novas em estudos evolutivos e marcadores geográficos e moleculares. Também poderá ajudar a compreender por que outros hospedeiros – como humanos, animais silvestres e até morcegos com hábitos diferentes dos hematófagos – são tão vulneráveis a essa variante”, disse à Agência FAPESP .

Silvana desenvolveu a pesquisa intitulada “Estudo genético do vírus da raiva mantida por populações de morcegos hematófagos Desmodus rotundus por meio do sequenciamento completo do genoma viral”, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

A pesquisa compreende também a tese homônima de Angélica Cristine de Almeida Campos, cujo trabalho, sob orientação de Silvana, é realizado no ICB-USP e vinculado ao Programa de Pós-Graduação Interunidades em Biotecnologia, que reúne alunos da USP, do Instituto Butantan e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Segundo Silvana, que também é professora credenciada do programa, das quase 1,2 mil espécies de morcegos somente três – Desmodus rotundus, Diphylla eucaudata e Diaemus yungii – são hematófagos.

“Os morcegos Desmodus rotundus são os mais bem adaptados à invasão do homem ao seu habitat. A variante do vírus da raiva mantida por esse morcego é a mais importante do ponto de vista econômico e de saúde pública, ao atingir animais de criação (rebanhos) e também humanos”, explicou.

Essa variante pertence ao gênero Lyssavirus e é encontrada em uma região que compreende do meio norte do México até o norte da Argentina – com exceção da Cordilheira dos Andes.

Os estudos genéticos são uma excelente alternativa para compreender por que outros hospedeiros são tão vulneráveis a essa variante genética distinta do vírus e por que, até hoje, não foi observada uma variante diferente em Desmodus rotundus.

“Há pouco mais de 15 anos só conseguíamos saber se alguém tinha raiva ou não. Todas as variantes do vírus já circulavam entre nós, mas, como não sabíamos o tipo atribuíamos normalmente à variante mantida por populações de cães”, disse Silvana.

O sequenciamento poderá ajudar a identificar como o vírus evolui e se mantém circulante com tanto sucesso. “Outras regiões genéticas são observadas, mutações podem ser encontradas e, talvez, possam explicar o que essa variante viral tem de diferente quando comparada a outras, como as mantida por canídeos, por primatas não humanos, como saguis, ou ainda por outros morcegos não hematófagos”, disse.

A sequência completa da variante do vírus da raiva será depositada em breve no banco do National Center for Biotechnology Information (NCBI).

Padronização de um novo método

Uma das dificuldades para se realizar o sequenciamento foi o tipo de material genético. Diferentemente de alguns vírus, o da raiva é do tipo RNA, mais suscetível a mutações.

“Os vírus de DNA são bastante estáveis à temperatura e possuem mecanismo de correção, ao contrário dos vírus de RNA, que são altamente instáveis. Quando a enzima erra ao copiar o genoma, ocorrem mutações”, explicou Angélica.

Segundo a doutoranda no ICB-USP, para os vírus de RNA é preciso realizar uma reação que facilite a manipulação da molécula no laboratório, chamada de síntese de DNA complementar (cDNA). “Fazemos um molde do vírus, que é de RNA na forma de DNA para que, em seguida, ele possa ser amplificado de maneira que a quantidade de material genético seja muito aumentada, possibilitando fazer o sequenciamento genético”, disse.

Existem enzimas que já realizam essa síntese, mas são muito caras e utilizadas geralmente para fragmentos pequenos. Mas, ao desenvolver e padronizar a nova técnica, foi possível a obtenção do cDNA viral completo de uma única vez e fazer a análise em um único fragmento, com a mesma enzima utilizada rotineiramente para os fragmentos pequenos.

“Pelo método tradicional, teríamos de realizar a síntese de cDNA pelo menos cinco vezes. Com a nova técnica desenvolvida, analisamos a mesma quantidade de material de uma vez só, com economia de tempo e dinheiro. É a primeira vez que esse procedimento é descrito para o vírus da raiva”, afirmou Angélica.

Esse resultado da pesquisa, que envolve a técnica de amplificação do genoma da variante sequenciada, foi encaminhado para publicação internacional. “Estamos escrevendo outros artigos sobre achados da pesquisa”, disse Silvana.

Ao cruzar informações disponíveis em banco de dados, foram feitas análises filogenéticas. “Quando comparamos os sítios antigênicos [regiões que estimulam o sistema de defesa e são importantes para o desenvolvimento das vacinas] da variante do vírus da raiva do morcego hematófago, percebemos que havia diferenças em relação aos sítios antigênicos da variante do vírus mantida por cães”, explicou.

“Essas diferenças entre as variantes mantida por cães e por Desmodus rotundus são substituições de aminoácidos. Esse é um dos achados da tese”, contou Silvana. Segundo a pesquisadora, as células do sistema imunológico reconhecem o corpo estranho, que é o antígeno (vírus), e o organismo começa a produzir anticorpos.

Silvana explica que o vírus é neurotrópico, ou seja, apresenta uma atração para se multiplicar no sistema nervoso do hospedeiro e não aparece no sangue de pacientes (viremia). O vírus é transmitido pela saliva de qualquer animal doente, incluindo humanos. Por isso, o cão é um hospedeiro eficiente devido ao hábito de morder.

“Quando chega ao sistema nervoso central ele se multiplica e estabelece a doença até matar o individuo. É uma doença letal, mas, se o indivíduo tomar a vacina rapidamente, dá tempo de o organismo produzir os anticorpos para neutralizar o vírus antes que ele chegue ao sistema nervoso central”, disse.

Papel ecológico

Segundo Silvana, não se pode encarar o morcego hematófago como vilão ou responsável pela raiva, porque esse animal também sofre com a doença. “O problema é que invadimos o habitat dele e causamos desequilíbrios ecológicos”, disse, destacando que eliminá-los por completo não é uma saída prudente.

No Brasil, assim como em outros países onde ocorre a raiva transmitida por esses morcegos, o Ministério da Agricultura padronizou e regulamentou o uso de uma pasta vampiricida de efeito anticoagulante que provoca a morte de morcegos hematófagos, com a finalidade de controlar em número as populações. “Mas esses morcegos, assim como outras espécies, têm um papel ecológico importante”, afirmou Angélica.

Manter os animais domésticos vacinados é muito importante, segundo Silvana. Pessoas que são atacadas por animais, silvestres ou não, devem procurar o serviço de saúde para ser orientado quanto à necessidade de vacinação. “Isso é uma falha muito grande na educação em saúde. Muita gente poderia não ter morrido se fizesse isso”, disse ao destacar o dia 28 de setembro Dia Mundial da Raiva.

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Novo Fator Genético na Esclerose Lateral Amiotrófica

03 setembro, 2010

A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença degenerativa progressiva e fatal, de causas ainda pouco conhecidas. Trata-se de uma síndrome complexa caracterizada pela degeneração dos neurônios motores.
Os autores do estudo utilizaram levedura e mosca-das-frutas como modelos, relacionando os resultados com os obtidos no sequenciamento do DNA humano, e encontraram evidência de que mutações no gene ataxina-2 representam um fator que contribui para a manifestação da doença.
Mais especificamente, a pesquisa mostrou que expansões do aminoácido glutamina no gene ataxina-2 estão associadas com um aumento no risco para a ELA.
O gene contém um trato poliglutamínico, uma porção da proteína na qual o aminoácido é repetido muitas vezes. Ao analisarem o DNA de 915 pessoas com ELA, os pesquisadores observaram que, em alguns deles, uma mutação no ataxina-2 fez com que a poliglutamina se esticasse.
Expansões de tamanho intermediário (com entre 27 e 33 glutaminas) foram associadas de forma significativa com a esclerose lateral amiotrófica, respondendo por 4,7% dos casos da doença. Parece pouco, mas, com isso, essa mutação específica se torna o marcador de risco genético mais comum para a doença de que se tem notícia.
Não há, atualmente, cura para a doença. A identificação de interações patológicas entre ataxina-2 e TDP-43, outra proteína associada à ELA, juntamente com a forte ligação genética das expansões do ataxina-2 com a síndrome, poderão ajudar no desenvolvimento de biomarcadores e, eventualmente, de novas terapias, apontam os autores.
Análises feitas em modelos de levedura e mosca-das-frutas, bem como em células humanas, confirmaram que o ataxina-2 é um poderoso modificador da TDP-43. O estudo mostrou que as duas proteínas interagem em modelos animais e celulares, promovendo a patogênese.
Os resultados indicaram uma ligação entre os genes e a doença. Quando os pesquisadores direcionaram a expressão da TDP-43 para o olho das moscas, observaram o início de um processo degenerativo e progressivo ligado à idade.
Quando a expressão foi direcionada para os neurônios motores, os insetos experimentaram uma perda progressiva de mobilidade. Quanto mais elevados os níveis de ataxina-2, mais alta era a toxicidade da TDP-43, resultando em uma denegeração mais severa.
“Como a redução dos níveis de ataxina-2, tanto em levedura como em moscas, foi capaz de prevenir alguns dos efeitos tóxicos da TDP-43, achamos que isso poderá ser investigado como um novo alvo terapêutico para a ELA”, disse Aaron Gitler, da Universidade da Pensilvânia, um dos coordenadores da pesquisa.
A esclerose lateral amiotrófica também é conhecida como doença do neurônio motor, doença de Charcot (Jean-Martin Charcot, neurologista francês que a descreveu em 1869) ou doença de Lou Gehrig, jogador de beisebol do início do século passado cuja carreira foi encerrada precocemente por causa da síndrome.
O ator inglês David Niven (1910-1983), o músico norte-americano Charles Mingus (1922-1979) e o físico Stephen Hawking são outros conhecidos portadores de ELA. No Brasil, o atacante Washington César Santos, que jogou no Atlético Paranaense, Fluminense (tendo sido campeão brasileiro em 1984) e na Seleção Brasileira, é portador da doença.
Artigo: Ataxin-2 intermediate-length polyglutamine expansions are associated with increased risk for ALS (doi:10.1038/nature09320), Andrew C. Elden, Aaron D. Gitler e outros.

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