Biologia Molecular e Energia

29 Outubro, 2010

Um pó que ao ser derramado sobre água é capaz de decompor um líquido sob a ação da luz e liberar energia. O exemplo de geração de energia é um dos objetivos da química supramolecular, área que investiga as interações entre as moléculas.

“Queremos usar energia química a partir do Sol e a química supramolecular pode ajudar nesse sentido”, disse Henrique Toma, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), no Workshop on Molecular Mechanisms of Photosynthesis, promovido pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) no dia 25 de outubro, em São Paulo.

Segundo Toma, a química supramolecular permite a síntese de átomos e moléculas que formam estruturas maiores. Essas, por sua vez, ao serem combinadas dão origem a peças, mas tudo ainda na escala nanométrica, da bilionésima parte do metro.

Nanotubos, nanoporos e nanofilmes são algumas das possibilidades. Um exemplo de aplicação são as células fotovoltaicas de terceira geração, chamadas dye solar cells, que são finas, flexíveis e transparentes, aumentando a versatilidade de aplicações desse tipo de receptor de energia.

A química supramolecular ainda pode ajudar a aperfeiçoar os sistemas existentes. “Podemos criar estruturas que aumentem a condutividade e reduzam a corrosão, por exemplo”, disse Toma.

Outro ponto a ser desenvolvido é a ampliação do espectro de luz solar absorvido para a produção de energia, “A maior parte dos comprimentos de onda está em uma faixa que ainda não é utilizada”, disse.

O modo como as alterações climáticas mundiais afetam as plantações voltadas à produção de bioenergia esteve entre os tópicos da conferência de Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP, que apresentou trabalhos desenvolvidos por grupos de pesquisa ligados ao BIOEN-FAPESP, programa do qual é um dos coordenadores.

“Experimentos indicaram que o aumento na temperatura e na concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre elevam muito o processo de fotossíntese na cana-de-açúcar e aumentam a biomassa da planta em cerca de 60%”, disse.

Os pesquisadores descobriram por meio da técnica de DNA microarray que essas mudanças ambientais alteram genes associados à captura de luz. Outra descoberta foi que cerca de 70 proteínas da cana-de-açúcar, de um total de 160, são alteradas em ambientes com maior concentração de dióxido de carbono.

Buckeridge também apresentou um trabalho sobre o miscanto, gramínea que tem sido utilizada na produção de energia em regiões de clima temperado no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa.

“O miscanto tem menos sacarose do que a cana-de-açúcar, porém é mais resistente ao frio, o que o torna interessante para a produção de bioenergia no sul do Brasil, no Uruguai e na Argentina, por exemplo”, disse Buckeridge. A planta resiste a temperaturas inferiores a 14º C.

Buckeridge e colegas vão trocar informações com cientistas da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sobre a concentração de carbono nos dois países. Torres para captura de amostras de ar serão construídas nos campi do Instituto Agronômico em Ribeirão Preto e em Campinas.

Os dados coletados farão parte do experimento SoyFACE, de enriquecimento de concentração ao ar livre aplicado à soja, feito pela universidade norte-americana com o objetivo de analisar os efeitos das mudanças climáticas sobre as plantações.

“As torres permitirão comparar esses efeitos sobre as espécies de miscanto nos dois hemiférios”, disse Buckeridge.

O movimento das moléculas

Munir Skaf, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas, apresentou uma técnica de simulação dinâmica biomolecular que tem se mostrado importante para novas descobertas em química e em biologia.

“As simulações dinâmicas moleculares são uma poderosa ferramenta para estudar os movimentos atômicos. Entender a interação atômica das moléculas é a chave para desvendar a dinâmica das proteínas e, com isso, compreender como a estrutura proteica se relaciona com as funções biológicas”, disse.

Skaf explicou o funcionamento das simulações e de que modo elas têm sido úteis para entender, por exemplo, como os hormônios se ligam aos receptores nucleares e como se desligam deles. Esses receptores são proteínas no interior da célula que reconhecem os hormônios.

“São estruturas importantes e relacionadas a diversos processos, do tipo diferenciação celular, metabolismo e desenvolvimento de diabetes e de alguns tipos de cânceres”, apontou.

Na área de bioenergia, as simulações dinâmicas moleculares podem auxiliar na produção de etanol celulósico ao permitir o desenvolvimento de coquetéis enzimáticos capazes de executar uma hidrólise economicamente viável, disse.

Para Skaf, a técnica também será capaz de trazer descobertas imprevisíveis. “Além de desvendar a estrutura das proteínas, as simulações dinâmicas moleculares podem revelar funções desempenhadas por elas das quais ainda nem suspeitamos”, afirmou.

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Gene da Infertilidade

14 Outubro, 2010

Mutações no gene NR5A1, também conhecido como SF1, podem responder por cerca de 4% dos problemas de infertilidade masculina por defeitos na produção de espermatozoides. A conclusão é de um estudo publicado no dia 30 de setembro no American Journal of Human Genetics.

O estudo foi coordenado por Anu Bashamboo, do Instituto Pasteur, na França, que teve a colaboração de outras instituições. “O índice de 4% parece pequeno, mas em termos populacionais tem um peso muito importante”, disse o único brasileiro que participou da pesquisa, o doutorando Bruno Ferraz de Souza, à Agência FAPESP.

Ferraz de Souza, que assina o artigo publicado como segundo autor, está na University College London (Reino Unido), instituição que participou do trabalho na fase de conferência dos dados de laboratório.

O Instituto Pasteur analisou 315 homens que apresentavam problemas na produção de espermatozoides e sequenciou o gene NR5A1 de todos eles, comparando os resultados com os de outro grupo formado por 2 mil homens que não tinham esse tipo de problema.

Foram encontradas mutações no NR5A1 dos voluntários que apresentaram alterações mais graves, como azoospermia (ausência completa de espermatozoides) e oligozoospermia (baixa concentração).

O gene NR5A1 codifica uma proteína fundamental que regula, entre outros fatores, o desenvolvimento sexual adulto. A primeira relação entre o gene com alterações nas gônadas (ovários e testículos) e nas glândulas adrenais foi descoberta por John Achermann, pesquisador do Institute of Child Health, de Londres, atual orientador de Ferraz de Souza.

Posteriormente, a equipe da professora Berenice Bilharinho de Mendonça, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), descobriu que o NR5A1 também estava associado a casos menos graves em que não havia alterações adrenais.

“Esse foi um passo importante para associar o gene a casos de menor gravidade, porém mais prevalentes”, disse Ferraz de Souza.

O estudo ainda permitiu levantar a hipótese de que a mutação no NR5A1 pode provocar uma alteração progressiva na qualidade do líquido seminal, ou seja, a redução gradual do número de espermatozoides ao longo do tempo.

“Por enquanto, essa é apenas uma especulação baseada nas observações do estudo e que ainda precisa ser comprovada”, ressaltou Souza, que conta com bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O artigo Human Male Infertility Associated with Mutations in NR5A1 Encoding Steroidogenic Factor 1 (doi:10.1016/j.ajhg.2010.09.009), de Bruno Ferraz de Souza e outros, pode ser lido por assinantes do American Journal of Human Genetics em:
www.cell.com/AJHG/abstract/S0002-9297%2810%2900477-5.

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Variantes Genéticas Associadas a Cânceres de Mama e de Ovário

02 Outubro, 2010

Tanto o câncer de mama como o de ovário têm fatores de risco em comum e os novos estudos identificaram que os dois tipos de tumores também compartilham uma mesma região genética de suscetibilidade ao desenvolvimento de tumores.

Simon Gayther, da University College London, no Reino Unido, e colegas realizaram um estudo de associação genômica ampla para o câncer de ovário. Foram reunidos 10.283 casos dos quatro principais subtipos histológicos e os cientistas identificaram duas novas regiões genômicas associadas com a doença.

No segundo estudo, o grupo de Paul Pharoah, da Universidade de Cambrigde, também no Reino Unido, realizou outra associação genômica ampla para o câncer de ovário em 8.951 casos. Os cientistas identificaram variantes em uma região genômica específica no cromossomo 19 que está associada com a doença.

Segundo a pesquisa, a região está próxima ao gene conhecido como MERIT40, que interage com outro gene, o BRCA1. Mutações nesse segundo gene são conhecidas como fatores de risco tanto para o câncer de ovário como para o de mama.

Fatores genéticos que poderiam modificar esses fatores de risco foram buscados no terceiro estudo, por Fergus Couch, da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, e colegas. Os cientistas fizeram uma associação genômica para o câncer de mama em 1.193 pacientes que tinham tanto a mutação no gene BRCA1 como câncer e em outras 1.190 pessoas que tinham a variante genética, mas permaneciam sem tumores.

O grupo verificou a associação de uma região genômica específica no cromossomo 19 com o câncer de mama nas mulheres com maior risco (as que tinham a mutação).

Segundo eles, a região no genoma é a mesma que o grupo de Pharoah descobriu estar associada com o câncer de ovário. Apesar da importância da descoberta, o grupo ressalta que mais pesquisas são necessárias para que se conheça melhor as funções dessas regiões cromossômicas envolvidas com a suscetibilidade a tumores.

Os artigos A genome-wide association study identifies susceptibility loci for ovarian cancer at 2q31 and 8q24 (doi:10.1038/ng.668), Common variants at 19p13 are associated with susceptibility to ovarian cancer (doi:10.1038/ng.666) e A locus on 19p13 modifies risk of breast cancer in BRCA1 mutation carriers and is associated with hormone receptor–negative breast cancer in the general population (doi:10.1038/ng.669) podem ser lidos na Nature Genetics.

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