American Journal Experts

Mecanismos Epigenéticos

21 fevereiro, 2011

Um estudo realizado nos Estados Unidos, com participação brasileira, revelou como a informação epigenética – a parcela de 99% do genoma que não codifica proteínas – se propaga durante a divisão celular e como esse processo é subvertido no câncer.

A pesquisa foi publicada na revista PLoS Genetics. Um dos autores, o brasileiro Daniel Diniz de Carvalho, realiza pós-doutorado no Departamento de Urologia, Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade do Sul da Califórnia.

Graduado em medicina veterinária pela Universidade de Brasília (UnB), Carvalho concluiu em 2009 seu doutorado, com Bolsa da FAPESP, no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), na área de imunologia.

Sob a orientação de Gustavo Amarante-Mendes, do ICB-USP, seu trabalho de doutorado gerou resultados importantes, publicados recentemente na revista Oncogene, do grupo Nature.

O trabalho, a princípio, tinha o objetivo de compreender como os padrões de metilação do DNA se mantêm inalterados em células normais. A metilação é o principal mecanismo epigenético: um grupo metil é transferido para algumas bases de citosina do DNA. O processo é fundamental para “desligar” os genes que provocam alterações na transcrição genética.

“O novo mecanismo descrito no estudo explica como células somáticas normais conseguem manter um padrão fiel de metilação do DNA durante diversas divisões celulares. Isso sugere que, durante o processo de gênese do tumor, esse mecanismo é desregulado, permitindo que ocorra metilação em regiões onde não deveria ocorrer – o que pode explicar como os genes supressores de tumor são inibidos”, disse Carvalho à Agência FAPESP.

Todas as células de um organismo têm o mesmo DNA, mas cada uma delas é especializada para uma função específica. Isso ocorre porque as alterações epigenéticas garantem essa diferenciação. “No câncer, esse processo é subvertido. A metilação ocorre em locais errados, desligando genes que deveriam suprimir o tumor, permitindo assim que ele ocrorra”, explicou.

Mas com os modelos utilizados até agora não se sabia exatamente como a metilação é mantida, nas células saudáveis, em locais exatos do DNA durante as divisões celulares. “Nosso principal achado se refere exatamente a isso: como as metilações aberrantes não ocorrem na célula normal”, disse.

Duas enzimas são responsáveis por controlar o mecanismo de metilação: a DNMT3A e a DNMT3B. Ambas podem metilar o DNA em qualquer lugar. “Essas enzimas são perigosas, já que podem desencadear a metilação em lugares onde ela não devia ocorrer”, afirmou.

As duas enzimas só conseguem ser estáveis quando estão “ancoradas” no nucleossomo que contém DNA metilado. Isso permite um mecanismo homeostático que faz com que as enzimas só ocorram nessa região. “Descobrimos que, no tumor, uma dessas enzimas se desgarra do nucleossomo e fica livre no núcleo. Com isso, ela consegue metilar lugares do DNA que não deveriam ser metilados”, disse.

Mecanismos de controle

Os pesquisadores descobriram também que o desprendimento da enzima ocorre por causa de uma deleção da proteína: um trecho da enzima é perdido e permite que ela possa se estabilizar fora do nucleossomo.

“Mas o mais importante foi descrever o mecanismo de como, em situação saudável, ocorre a manutenção dos padrões normais de metilação do DNA. Com a divisão celular, esse padrão precisa ser transferido para a célula filha de forma fiel. Conseguimos descrever como esse mecanismo se mantém com tal fidelidade”, disse Carvalho.

As enzimas, segundo o cientista, precisam ficar ancoradas no nucleossomo. Esse mecanismo regulatório é o que permite a propagação fiel e impede que ocorram metilações aberrantes.

“Vamos tentar entender melhor como a célula tumoral consegue superar esse mecanismo. Chegamos às primeiras pistas: a deleção de deltaisoformas da enzima, que permite que ela se desprenda do nucleossosmo. Agora, queremos entender como o tumor consegue driblar esses mecanismos de controle que descrevemos”, afirmou.

Artigos:
Nucleosomes Containing Methylated DNA Stabilize DNA Methyltransferases 3A/3B and Ensure Faithful Epigenetic Inheritance (doi:10.1371/journal.pgen.1001286), de Daniel Diniz de Carvalho e colaboradores.

BCR-ABL-mediated upregulation of PRAME is responsible for knocking down TRAIL in CML patients (doi:10.1038/onc.2010.409), de Gustavo Amarante-Mendes e colaboradores.

READ MORE - Mecanismos Epigenéticos

Poluição e Mutações

18 fevereiro, 2011

Durante três décadas, de 1947 a 1976, duas fábricas de uma multinacional jogaram um total estimado de 600 mil quilos de bifenilas policloradas (PCB), compostos organoclorados sintéticos considerados entre os poluentes com maior biotoxicidade, no rio Hudson, em Nova York.

O resultado foi o acúmulo do composto cancerígeno em um peixe local, o Microgadus tomcod, da família do bacalhau, em níveis nunca vistos em populações naturais. O surpreendente é que o peixe não sumiu da área afetada, mas proliferou a ponto de hoje ser encontrado em grandes populações.

O motivo é que o excesso de PCB induziu a um tipo de mutação que levou o peixe a evoluir para poder resistir à grande quantidade de toxinas presente na água, segundo estudo publicado nesta sexta-feira (18/2) no site da revista Science.

Esse tipo de resposta é conhecido em insetos, que desenvolvem resistência a certos pesticidas, e em bactérias, que passam a resistir a antibióticos. “Mas essa é a primeira demonstração de um mecanismo de resistência em uma população de vertebrados”, disse Isaac Wirgin, do Departamento de Medicina Ambiental da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, que liderou o estudo.

Como Wirgin e colegas sabiam que o receptor de arilhidrocarbono (AHR2) regula os efeitos tóxicos do PCB em peixes, eles analisaram exemplares do M. tomcod para observar de que forma o receptor havia sido afetado.

O grupo verificou que esses peixes do rio Hudson e de áreas próximas tinham quatro mutações distintas no gene AHR2 que não eram comuns em outras populações da mesma espécie em áreas não contaminadas.

Segundo os pesquisadores, essas mutações parecem prejudicar a capacidade da AHR2 de se ligar a certas substâncias tóxicas presentes na água.

Os cientistas sugerem que os peixes no rio Hudson passaram por uma rápida evolução, alterando a AHR2 em um período curto de tempo, de modo a desenvolver resistência aos PCBs que infestaram seu habitat.

Embora o peixe tenha superado a poluição no rio, o resultado não foi tão bom para seus predadores ou o homem. “O M. tomcod sobreviveu, mas ele ainda acumula PCB em seu corpo e passa a substância para qualquer outro que o coma”, disse Mark Hahm, da Instituição Oceanográfica Woods Hole, outro autor do estudo. Ou seja, apesar de o peixe ter resistido e proliferado, a pesca está fora de questão.

Artigo: Mechanistic Basis of Resistance to PCBs in Atlantic Tomcod from the Hudson River (doi: 10.1126/science.1197296), de Isaac Wirgin e colaboradores.

READ MORE - Poluição e Mutações

Proteínas que Deligam o Estresse

10 fevereiro, 2011

Entender como o organismo humano responde a estados de estresse agudo é o que motivou a pesquisa conduzida por Alon Chen e colegas no Departamento de Neurobiologia do Instituto de Ciência Weizmann, em Israel.

Os cientistas dirigiram o estudo para uma família de proteínas que tem papel importante para regular o mecanismo do estresse. Uma dessas moléculas, a CRF, é conhecida por iniciar uma sequência de eventos que ocorrem quando uma pessoa se sente pressionada.

A pesquisa identificou evidências de que três proteínas, denominadas urocortina 1, 2 e 3, atuam no desligamento da resposta ao estresse. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Os pesquisadores geraram camundongos geneticamente modificados para que não produzissem as três urocortinas e usaram outro grupo controle, de animais normais.

Ao serem submetidos a situações estressantes, os dois grupos reagiram de modo semelhante. As diferenças foram percebidas 24 horas depois, quando o grupo controle havia voltado ao estado normal, mas o outro ainda estava com os mesmos níveis de ansiedade observados logo após o episódio estressante.

Para tentar entender os mecanismos de ação das proteínas, Chen e colegas analisaram os dois grupos de camundongos para níveis de expressão de genes com papel conhecido na resposta ao estresse.

Os cientistas verificaram que os níveis de expressão genéticos permaneceram constantes durante e após o estresse nos animais geneticamente modificados. Os padrões se alteraram consideravelmente no grupo controle.

Segundo os cientistas, o motivo é que no primeiro grupo o sistema urocortina não pode ser ativado, impedindo os animais de retornarem ao estado normal.

“Os resultados implicam que o sistema urocortina tem um papel central na regulação das respostas ao estresse. Isso poderá ter implicações para o estuso de distúrbios de ansiedade, depressão e anorexia”, disse Chen.

Artigo: Perifornical Urocortin-3 mediates the link between stress-induced anxiety and energy homeostasis (doi/10.1073/pnas. 1003969107), de Alon Chen e colaboradores.

READ MORE - Proteínas que Deligam o Estresse

Últimas Notícias