Ética na Genética

20 Setembro, 2011

As informações geradas pelos avanços da genética podem abalar alguns dos valores mais importantes da sociedade. Com isso, torna-se necessária a reflexão sobre dilemas e questionamentos éticos criados pelos avanços na área, como a possibilidade de análise do genoma humano a um custo cada vez mais acessível.

É o que pretende o livro GenÉtica: Escolhas que nossos avós não faziam, escrito pela geneticista Mayana Zatz – coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP –, lançado na semana passada na capital paulista.

“Acredito que as questões éticas que descrevo no livro serão cada vez mais relevantes para toda a população”, disse a autora à Agência FAPESP. A obra, cuja ideia surgiu de um bate-papo entre ela e o médico Drauzio Varella, reúne alguns dos conflitos vivenciados pela cientista e que levantam percalços legais e éticos decorrentes da genética.

“Cada vez mais é possível descobrir algo com o DNA. E o que é feito a partir dessa informação pode, ou não, ser benéfico. Há um vazio legal em diversas questões da genética, cuja discussão é importante”, ressaltou.
GenÉtica é voltado tanto para especialistas que atuam nas áreas de genética e bioética como ao público geral. Cada capítulo descreve uma nova situação, que tem por objetivo levar o leitor a refletir sobre o uso da informação genética e seus limites.

Ao todo, são 13 capítulos que abordam temas com questões conceituais que dificultam a aplicação de normas, como os princípios da privacidade e da confidencialidade, a escolha seletiva de embriões, a clonagem humana e os testes de DNA.

“As pessoas têm a impressão de que, para estudar o DNA, é preciso coletar o sangue. Mas deixamos nosso DNA por todo lado, como, por exemplo, no copo e nos talheres que usamos. A questão é: a quem pertence esse DNA?”, disse Zatz.

No livro, a cientista cita como exemplo o caso do menino conhecido como Pedrinho, sequestrado em Brasília na maternidade. Na mesma época em que o caso veio à tona, suspeitou-se que Roberta, sua suposta irmã, também pudesse ter sido sequestrada por Vilma, mãe adotiva do menino.

“Porém, ao prestar depoimento na polícia, Roberta – que não queria saber se Vilma era ou não sua mãe verdadeira – descartou restos de cigarro. A partir da análise daquele material foi possível fazer o exame de DNA e confirmar que ela também não era a filha biológica de Vilma.”

“E o direito dela de não querer saber? Vários juristas dizem que isso é perfeitamente legal, que aquele DNA não lhe pertencia mais”, ressaltou Zatz.

A geneticista também chama a atenção para o debate ético sobre a identificação precoce de genes que aumentam a predisposição para doenças – entre as quais certos tipos de câncer, hipertensão e males cardíacos – e os impactos da seleção do sexo em larga escala, como na China e na Índia, onde a proporção de homens é maior que a de mulheres.

“Hoje discutimos sobre isso. Mas, em um futuro próximo, os casais poderão escolher uma criança com olhos de determinada cor, habilidades para esportes ou mais inteligente”, disse.

A obra conta também com uma seção bibliográfica, para quem desejar se aprofundar nos temas abordados, e outra com explicações sobre os termos técnicos citados nos textos.

“O livro é para as pessoas notarem o que está acontecendo. Essa provocação é importante para mostrar a realidade, pois o que se fala na teoria é muito bonito, mas na prática a teoria é outra”, afirmou.
 
GenÉtica: Escolhas que nossos avós não faziam
Autora: Mayana Zatz
Lançamento: 2011
Preço: R$ 29,90
Páginas: 202
Mais informações: http://globolivros.globo.com
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Marcador para a Metástase

19 Setembro, 2011

O aparecimento de metástases tem contribuição fundamental do fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF-A, na sigla em inglês) produzido por células do estroma positivas para o marcador S100A4, de acordo com um novo estudo feito por brasileiros e norte-americanos. O estroma é o tecido conectivo que dá sustentação às células funcionais dos órgãos.

De acordo com os autores, o estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences poderá ter impacto clínico importante, já que pacientes positivos para o marcador S100A4 nas células – em tese mais propensos à metástase – poderão ser identificados e se beneficiar de drogas anti-VEGF existentes.

O trabalho teve a participação de Ricardo Renzo Brentani e de Rafael Malagoli Rocha, ambos do Departamento de Oncologia do Hospital A.C. Camargo – Brentani é diretor-presidente da FAPESP. Os outros autores são de instituições norte-americanas: da Escola de Medicina de Harvard, do Departamento de Patologia do Hospital Rhode Island, da Universidade Vanderbilt, em Nashville, e da Divisão de Ciências e Tecnologia da Saúde Harvard–Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

O VEGF-A promove a angiogênese – o crescimento de novos vasos sanguíneos – na região tumoral. Esses vasos alimentam o tumor e ao mesmo tempo propiciam e facilitam o aparecimento da metástase.

“Verificamos que existe o aparecimento do VEGF-A em células do estroma – que basicamente são fibroblastos – que compõem a matriz intracelular. Por isso, elas têm um papel central na colonização metastática. Mas o mais importante é que os fibroblastos responsáveis pela produção do VEGF-A podem ser positivos para o marcador S100A4”, disse Rocha à Agência FAPESP.
Segundo ele, existem drogas que bloqueiam a ação do VEGF, como o Bevacizumab, que obteve sucesso no tratamento de pacientes com doenças metastáticas, aumentando a sobrevida. “Imaginamos que os pacientes com S100A4 no estroma podem se beneficiar com essas terapias anti-VEGF”, afirmou.

Rocha e Brentani estabeleceram uma parceria com o grupo liderado por Radhu Kalluri, do Centro Médico Beth Israel Deaconess, hospital universitário da Faculdade de Medicina de Harvard. O estudo publicado na PNAS é resultado dessa cooperação.

A parte experimental da pesquisa foi realizada em Harvard, em dois grupos de camundongos: um grupo de animais transgênicos que não expressam a proteína S100A4 e um grupo de controle capaz de expressá-la. “Com isso, conseguimos observar as diferenças entre os dois grupos quanto à produção de VGEF e quanto ao aparecimento de vasos e metástases”, disse Rocha.

No Laboratório de Anatomia Patológica do Hospital A.C. Camargo, os cientistas fizeram a parte molecular in situ do estudo, realizando testes imunohistoquímicos para identificar a quantidade da proteína S100A4 expressa nos fibroblastos estromais.

“A partir daí conseguíamos prever quais pacientes produziriam mais vasos e estariam mais suscetíveis à metástase, caso não fossem tratados”, afirmou o cientista.
O estudo demonstrou, segundo Rocha, que os fibroblastos positivos para S100A4 têm papel crucial na tarefa de fornecer “solo fértil” para a colonização metastática – que de acordo com ele é um passo fundamental da cascata metastática.

O artigo VEGF-A and Tenascin-C produced by S100A4+ stromal cells are important for metastatic colonization (doi/10.1073/pnas.1109493108), de Radhu Kalluri e outros, pode ser lido por assinantes da PNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1109493108

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Quando o Brasil terá um Nobel?

15 Setembro, 2011

A juventude da ciência brasileira, a burocracia e deficiências no sistema educacional são fatores que podem ajudar a explicar por que o país não tem um cientista ganhador do prêmio Nobel. A análise foi feita por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, durante a 4ª Semana Abril do Conhecimento, na terça-feira (13/09) na sede da Editora Abril, em São Paulo.

O encontro, mediado por Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, teve como objetivo discutir cenários e oportunidades em ciência e tecnologia no Brasil e a questão “Quando teremos um Prêmio Nobel?” como um dos temas principais.

O debate contou com a participação do professor Rodrigo do Tocantins Calado, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), e do biólogo Fernando Reinach, membro do conselho de administração do Fundo Pitanga de capital de risco.

“Há muitos elementos na vida brasileira que precisamos melhorar para podermos falar em Nobel. Não é um cientista sozinho que faz a ciência de um país”, disse Brito Cruz.

“A pergunta que deveríamos fazer é ‘como a ciência pode ajudar mais os brasileiros a ter uma vida melhor, com ou sem o Nobel’, pois o objetivo de fazer ciência boa em um país não é ganhar o prêmio, é fazer o país ser melhor. Se fizermos isso direito, aparecerá um Nobel”, ressaltou.
Além da melhora da qualidade de vida e da educação, Reinach destacou a necessidade de calcular o rendimento científico considerando a competitividade das empresas brasileiras.

“A medida de sucesso de um país deveria ser essa, e o prêmio Nobel, a cereja do bolo. O Nobel tem uma característica muito peculiar: prevê algo totalmente novo e não obrigatoriamente traz benefícios para a população”, disse.

Reinach citou como exemplo o trabalho da bióloga Johanna Döbereiner (1924-2000) com o desenvolvimento de variedade de sementes de soja adaptadas ao clima tropical.

“Isso permitiu que a soja criasse toda uma riqueza agrícola-industrial no Centro-Oeste brasileiro. Não é um fato inovador, mas provavelmente é possível contabilizar a riqueza gerada por ela”, disse.

Calado, que voltou recentemente ao Brasil após uma temporada de nove anos nos Estados Unidos, disse que uma das principais dificuldades encontradas no país para o avanço da pesquisa é a burocracia para a importação de materiais e equipamentos. “Isso atrapalha muito a nossa competitividade”, afirmou.
Segundo ele, atualmente grande parte dos serviços administrativos ainda é realizada pelo próprio cientista, em vez de funcionários específicos para essa função, contratados pelas instituições acadêmicas e de pesquisa, como é comum em diversos países em que a ciência está mais desenvolvida.

“É preciso que as universidades brasileiras garantam um escudo que proteja os pesquisadores da burocracia. O erro é ele fazer um serviço que não é de pesquisador. O tempo do pesquisador deve ser usado para fazer ciência e escrever papers”, destacou Brito Cruz.

Para atender a essa demanda da comunidade científica no Estado de São Paulo, a FAPESP implantou um programa piloto de treinamento para as equipes dos Escritórios de Apoio Institucional ao Pesquisador (EAIP).
As EAIPs ampliam a atuação dos pontos de apoio, que a FAPESP mantém distribuídos por diversas universidades e instituições de ensino superior e de pesquisa no Estado de São Paulo e que atuam como facilitadores no envio de documentação à FAPESP, além de orientar bolsistas e pesquisadores nos procedimentos envolvendo a Fundação. 

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Já é Possível Transformar Gordura Ruim em Boa

Um grupo de cientistas identificou um mecanismo biológico que transforma gordura branca em marrom. A novidade publicada na edição de setembro da revista Cell Metabolism poderá auxiliar no desenvolvimento de novas estratégias para tratar a obesidade.

O homem tem dois tipos de tecido adiposo: o marrom, ligado à regulação da temperatura e abundante em recém-nascidos; e o branco, cuja função é acumular energia no corpo e está mais presente em adultos. A gordura branca está associada à obesidade e falta de exercícios. É a gordura indesejada e que muitos querem se livrar do excesso.

O novo estudo, feito em modelo animal por cientistas do Centro Médico da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, demonstrou que a transformação da gordura ruim em boa é possível devido à ativação de uma enervação e de um caminho bioquímico que começa no hipotálamo (área cerebral envolvida no balanço energético) e que termina nas células adiposas brancas.

A transformação das gorduras foi observada quando os animais foram colocados em um ambiente mais rico, com maior variedade de características e desafios físicos e sociais.

Camundongos foram colocados em recipientes contendo rodas de girar, túneis, cabanas, brinquedos e diversos outros elementos, somados a alimento e água em quantidades abundantes. Um grupo controle também foi exposto a água e alimento sem limites, mas em ambiente sem dispositivos para que pudessem se exercitar.

Segundo os cientistas, a maior transformação de gordura branca e marrom foi associada a um ambiente fisicamente estimulante, mais do que à quantidade de alimentos ingerida.

“Os resultados do estudo sugerem o potencial de induzir a transformação de gordura branca em gordura marrom por meio da modificação do nosso estilo de vida ou pela ativação farmacológica desse caminho bioquímico”, disse Matthew During, professor de neurociência e um dos autores do estudo.

O artigo White to Brown Fat Phenotypic Switch Induced by Genetic and Environmental Activation of a Hypothalamic-Adipocyte Axis (doi:10.1016/j.cmet.2011.06.02), de Matthew J. During e outros, pode ser lido por assinantes da Cell Metabolism em www.cell.com/cell-metabolism

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